15.4.11

TRAGÉDIA DO RIO DE JANEIRO

UMA CRÍTICA AO MODO BRASILEIRO DE FAZER, VER E INTERPRETAR A NOTÍCIA.

MARCELO DE FREITAS

Um texto com este título é, infelizmente, repleto de valores, apesar de todos estarem certos neste momento sobre o assunto que vou tratar, pela repercussão da mídia ao caso da escola em Realengo. Quero ampliar um pouco mais a minha capacidade de imaginação, ampliar mais do que a mídia pode noticiar (mesmo numa cidade que constantemente é bombardeada de informações sobre tráfico e criminalidade), pois muito do ocorrido na “cidade maravilhosa” não desce dos morros e não atrai audiência.

Milícias armadas, seguranças particulares só são noticiados, só ganham (ou perdem) status-quo quando atingem a interesses ou a comoção de uma pequena margem da população (geralmente zona sul). Quero deixar clara algumas questões. Quantos não são os massacres tão cruéis ou mais contra a população em bairros e favelas? Quantas não são as vítimas pobres dessas mesmas milícias ou do tráfico? Isso quando não é um braço do Estado (polícias, exércitos) que comete atrocidades contra civis e ninguém fica sabendo.

Só pra exemplificar coisas que sempre acontecem na sociedade e poucas vezes são noticiadas na mídia tem um caso recente na praça XV, onde um policial recolhe um skate alegando que não se pode andar na tal praça no momento em que aparece no vídeo uma moça chorando vítima de um assalto que acabara de ocorrer. A reação do policial, é claro, foi a mais simples, continuar com o skate da turma de jovens.

Voltando, porém, ao tema central do texto, difícil não se comover com casos como este da escola, principalmente com o bombardeio midiático, que já transforma o assassino num Bin Laden, na concentração de toda ruindade que pode existir no universo. O ponto que quero chegar é que não é preciso estatísticas ou auxílios de ciências exatas, probabilidades, para se concluir que para cada caso abraçado como único na mídia em geral existem inúmeros simplesmente escondidos.

E nessa margem da sociedade e da notícia uma grande parte da população continua vivendo com um distanciamento cada vez maior de uma “cultura de notícia”, exercida nos grandes meios, que massifica uma pequena parcela da informação e deixa a cada dia mais no submundo vidas, atividades e atrocidades.

Com todas as dificuldades de representação, na margem de uma sociedade cada vez mais vítima de uma informação pasteurizada, (mesmo quando se trata de noticiar atrocidades, já que para se ter poder de negociação, de solicitação aos representantes, de pedido de segurança, há que se ter também o mínimo de conhecimento, de mídia, de voto), vive e morre todos os dias muita gente. Citando um exemplo de agendamento da mídia num assunto, ou do esquecimento de sociedades, de regiões inteiras: quem saberia me dizer, antes do ocorrido em Realengo, onde ficava o tal bairro?

Crimes como este, como o caso Isabella Nardoni, do menino João Hélio ou dos Von Richtoffen, são sim comoventes, bárbaros, mas não são únicos. Há que se dizer que estamos, leitores, ouvintes e telespectadores, num castelo de muros altos onde quem decide o que vamos ou não tomar como valores é o filtro da informação, que nas redações tem nome de gate-keeping (guardador do portão) e que, tanto na beleza quanto na ruindade, a vida é maior do que o que nos é sentenciado a todo momento como verdade absoluta e irrestrita.

1.2.11

NÓ CEGO

Dá pra se imaginar a inutilidade de um cadarço ou corda, de tênis, bermuda ou qualquer objeto que seja empregado se estiver cheio de voltas que não amarram, nós que não prendem?

Muitas vezes acontece e a melhor solução, sempre que possível, pelo menos para mim, é passar a faca, tesoura ou alguma ferramenta capaz de cortar na raiz o problema.

Quando este termo, metaforicamente, é utilizado em outros contextos, no serviço - por exemplo -, os danos são parecidos, agravados com a atribuição do cargo.

Em todos os serviços de que se tem notícia eles estão lá, inertes e sem função. Um caixa de banco que atrasa seu atendimento e não cumpre sua finalidade, policiais, políticos, advogados, professores, enfim. Nenhuma classe está imune dos colegas de trabalho “nós cegos”.

Nenhuma carreira, porém é tão cheia deles como a de servidores públicos. Em todas as esferas de governo e em qualquer das casas de atuação, existem incontáveis espécimes desta raça, a ponto de a classe cair no conceito popular de que não trabalha, fica esperando o tempo passar e recebe quantias altas para desempenhar pequenas funções.

Para comprovar este conceito popular enraizado em nossa cultura, basta ver em conversas com amigos e parentes a visão que cada um, singular, assim como o senso comum, tem da cidade de Brasília, que é a maior concentração de políticos e de órgãos públicos.

Desde órgãos tão tradicionais e modelos de reformulação de sistemas de valores e da administração pública em geral - como tem sido o poder judiciário -, aos menos preocupados com o servidor e com o emprego de verbas públicas, não há quem não cite a presença maciça de pessoas sem capacidade, ou vontade, de executar as competências para as quais foram designadas.

A diferença entre estes órgãos é que enquanto os preocupados tentam minimizar a quantidade e os efeitos causados pelos nós cegos no grupo e nos serviços apertando cada vez mais a fiscalização e mostrando um modelo eficaz de administrar recursos materiais e humanos, outros parecem alimentar o sistema e as crenças populares no sentido de fazer vistas grossas à extrema falta de compromisso e interesse dos servidores, que na medida em que o tempo passa sem nada que desabone suas progressões funcionais - já que chefes se mostram igualmente desinteressados com o serviço -, ficam mais fortes e influentes em seu setor e seus órgãos.

Há que se ressaltar, todavia, que, mesmo em órgãos não preocupados com a função pública inerente a cada atividade, é minoria a presença de funcionários sem know-how ou sem interesse para exercer suas atividades. Isto posto, os transtornos causados por eles não podem ser calculados com exatidão pela administração tamanhos que são.

De qualquer forma, há que se ressaltar também a presença forte, mesmo nos mais atrapalhados órgãos da gestão pública e administrativa, de servidores engajados em seus serviços e no papel que exercem na carreira pública, o que me fortalece a esperança, como membro de um destes órgãos públicos e como membro da sociedade, em melhorias administrativas e funcionais no estilo brasileiro de gestão da administração e dos recursos públicos em geral.

Sim, como cidadão e servidor acredito que estamos (a passos lentos, é verdade) evoluindo em nossa recente história democrática e administrativa para um ponto onde o próprio servidor, os companheiros, o chefe imediato ou o público atendido no determinado serviço não mais permitirão tão facilmente a falta de compromisso/competência/capacidade de quem ingressa na vida pública.

25.12.10

Se todos os dias fossem natal

Em um dia do ano nossas vidas se renovam de alegria, esperança, boa fé. Convivemos em harmonia, em cortesia até mesmo com os mais ferrenhos algozes. A paz reina e no trânsito não se houve o buzinaço ensurdecedor tradicional de 364 outros dias, iguais a esse. Mas por que?

Por que o espírito natalino, festivo, gentil, não permanece até os outros meses do ano. Será que as pessoas o oferecem a Iemanjá ou a alguma outra divindade como sinal de agradecimento na virada do ano, para que essa divindade tenha uma vida de paz e tranqüilidade?

A festa é tradicional, familiar e enraizada de uma forma empírica na sociedade brasileira a ponto de outros graves acontecimentos do ano raramente ofuscarem a beleza da convivência fraternal deste dia. Brigas, discórdia entre membros de uma família, por mais graves e tristes que sejam, poucas vezes estragam o convívio pacífico da grande ceia.

Não consigo entender é essa parte: se filhos perdoam pais, irmãos perdoam genros, enfim, se exercemos com tamanha perfeição a arte do perdão e do convívio neste dia do ano, por que colecionamos, enquanto sociedade, tantos traumas e inimigos no decorrer de um ciclo, já que o calendário não é mais do que uma criação humana para facilitar as coisas.

Problemas seriam resolvidos, guerras não seriam criadas e a sociedade iria ser como um desenho dos ursinhos carinhosos, extremamente entediante e chata, mas bem melhor do que o inferno em que vivemos.

A demagogia de achar que tudo isso existe e vai mudar na transição de um ano é irritantemente estúpida, assim como outras tantas dessa época, como a falsidade natalina que une pessoas, ou a perspectiva de um ano mais “justo para todos”, como se fossemos pensar nos muitos famintos que batem à nossa porta ou ao nosso carro todos os dias. Pessoas que, não sabem nem nunca saberão como é ter a mesa farta de uma ceia, que não participam nem dos restos, já que o que sobra simplesmente jogamos fora.

Por que não pensamos mais a respeito? Só pelo fato do incomodo que essas idéias nos causam? Se sim, somos os seres mais egoístas que já tive notícias.

Por outro lado - como tudo tem uma referência, um paralelo, uma outra vertente -, se conseguimos, e de fato quase sempre conseguimos, conviver com os semelhantes e com os diferentes com respeito e elegância (mesmo sem escapar dos comentários e menosprezos, porque ai seria pedir demais pro papai Noel), nesta semana de festas, isto significa que não estamos totalmente perdidos ou voltados para nossos respectivos umbigos. Se fazemos tanta força, e as vezes é preciso, para não causar ou aumentar um conflito, por que não pensamos duas vezes em hastear fervorosamente nossos dedos e se valer de todo nosso vocabulário para exercermos nossa ironia e a arte de ofender pessoas

O fim do ano, natal/réveillon, é uma época que me enche de perguntas, fico irritado, mas sempre esperançoso, pois vejo o potencial que temos. Para tornar tudo isso melhor, alguém poderia começar me ajudando a responder tais questões. É possível?

2.10.10

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais

Depois de dois textos sobre as eleições eu prometo que este será o último. pelo menos nesse ciclo que começa a acabar amanhã, 3/10. Este foi baseado no vídeo que eu tentei botar direto no layout e não consegui. Acontece que o problema que vivemos em nossa sociedade é bem maior do que o tema dos textos anteriores e que, por mais que nos esforcemos em projetos como o do Ficha Limpa, não será resolvido com a lei ou com o "voto consciente" ou mesmo com o passar do tempo.


Sugiro veementemente que cada vez mais gente possa ter embasamento pra entender e aplicar idéias como a desse rapaz do vídeo. em outros vídeos, textos ou qualquer forma que possa ser propagada porque é disso que precisamos!


Digo isso me remetendo a uma discussão que tive com o amigo Pablo, que me faz uma falta monstruosa pra montar o layout desse espaço, já que sou um analfabeto de pai e mãe:


Ele, numa certa ocasião, descobriu um problema e buscava soluções para resolvê-lo. Sem entrar muito em detalhes, debatemos acerca da conscientização através de oficinas, grupos de estudos e práticas sempre associadas à educação de base, as escolas, visto que, na medida em que esse pessoal for crescendo, como nós, com idéias formadas e vontade de mudança, seria muito complicado alguém cobiçar meu voto, ou o voto dessa galera.


Devagarinho, as coisas mudam e esse vídeo é um ótimo exemplo. assistam porque vale a pena.

11.9.10

Mensagem à democracia.

ELEIÇÕES 2010.



A cada dois anos é a mesma situação. Mensagens bem elaboradas de vários órgãos e entidades povoam as mídias e as ruas em outdoors, banners e santinhos por todos os lugares. É hora de exercermos maciçamente nosso direito à “cidadania”.

No caso brasileiro, é mais do que isso. É a principal, e quase única, forma de “garantir um futuro melhor”. Democraticamente, todos nos enchemos de esperança, como se estivéssemos terminando um ciclo de ruindade e tudo que virá a posteriori será o paraíso.

O que se esquece de falar nestes argumentos, principalmente criados pelo próprio órgão regulamentador do sistema eleitoral brasileiro - o TSE -, é que não há escolha. Mesmo se, em alguma situação hipotética, tivéssemos um Messias no meio de nós, o jogo político faria, certamente, com que ele não pudesse expor, em várias situações de governabilidade, as suas convicções e as idéias do povo que o elegeu. Seria mais uma vítima do sistema partidário que enaltece e endossa - a cada dia mais, nas mãos das elites - a concentração de poder.

O que fazer a este respeito? Quando este atual sistema de votação fora criado no Brasil, seguindo o regime ditatorial do fim da década de 1980, havia a possibilidade de protesto, mesmo na obrigatoriedade de se votar. O atualmente bem divulgado voto nulo tinha papel importante na sociedade. Trazia consigo uma mensagem subliminar que dizia, por exemplo: “Eu não aceito estas propostas e estes candidatos, não me sinto bem ao confiar em nenhum dos argumentos fornecidos. Troquem.” E se ao final da contagem, a quantidade de votos nulos chegasse a uma determinada porcentagem haveria a previsão de um novo pleito com novos candidatos.

Infelizmente isso acabou. Não o voto nulo, mas o poder que ele tinha. Atualmente o voto nulo na eleição é considerado como um simples erro, como se não soubéssemos digitar números num teclado semelhante ao de um telefone. São somados aos brancos e excluídos (disse com todas as letras, excluídos) do coeficiente de votos válidos e descartados da eleição.

Moral da história: Quanto mais votos nulos, maior é a felicidade de quem estiver no primeiro lugar das eleições. Por que? Porque a quantidade de votos que ele precisará para vencer em primeiro turno só computa os votos válidos, isto é, a cada voto nulo, ele precisará de um voto a menos para se eleger sem disputar o segundo turno. É ou não é um protesto sem nenhuma voz?

Porém, nem tudo está perdido. A justificativa, em caso de não comparecimento no dia da votação, é uma arma relativamente eficaz contra o sistema eleitoral, mas muito subjetiva. Sugiro, caso algum de vocês queira aderir a esta prática, que usem a imaginação. Lembrem-se de quando éramos crianças e fazíamos de um tudo para enganar mães, professores e diretores com justificativas esfarrapadas para a lição de casa. Todos já fizemos isso. No caso eleitoral é igualzinho, com um ponto a mais: Ninguém que vai analisar as justificativas nos conhece. O que, com certeza, é mais fácil na hora de inventar. Matem parentes, passem mal, quebrem ossos, enfim, entrem na ficção, inventem!

Digo que esta situação é relativamente eficaz porque não há a interpretação de insatisfação quanto às propostas eleitorais e sim de um simples caso fortuito.

Existe, também, outra situação que, por mais que seja tão relativa quanto a justificativa, a meu ver é mais significante para fins de protesto. Simplesmente não vá votar! Não faça nada, fique em casa, não justifique e que vá pro inferno todo este sistema de cartas marcadas! Para quem faz isso, existem algumas penalidades que se há de pagar. Dentre elas uma multa que, em Minas Gerais, não passa de R$5.

Neste caso; das duas, uma. Pague a porcaria de R$5 e viva feliz por dois anos ou ignore a multa e assuma os riscos, como o de não poder ser nomeado em concurso público ou não poder servir às forças armadas.

Sugiro, inclusive, a primeira opção, para se dar a possibilidade aos órgãos públicos, e a quem mais quiser, de contabilizar o índice de pessoas que “faltam”, já que quanto maior o número de pessoas que se submetem a pagar a tal multa, maior será o número de pessoas que não vai votar, o que pode modificar o modo de se fazer política por aqui.

Digo isso porque se esse índice for alto, cada vez mais os possíveis votos dessa galera vão ser cobiçados, e pra se cobiçar um voto meu, por exemplo, terão que utilizar bons argumentos.

No mais, um “bom dia de cidadão” para todos. Que todos se lembrem neste dia que os próximos quatro anos “dependem” de cada um de vocês. Que vença o “melhor para a democracia”. "O Brasil agradece"!

2.5.10

Maior que o aquário

crônica feita para o pessoal da minha repartição.

Uma nova realidade é sempre contrastante com a rotina antiga e isso é fato. Nunca me vi, por exemplo, exercendo alguma atividade de escritório; fechado; em ar condicionado; com papelada e burocracia. Os que me conhecem sabem que essa realidade não tinha, e ainda não tem, nada a ver com o que gosto.

Porém, quando entrei em meu novo posto e percebi a felicidade dos servidores ao me receber, tive – e ainda tento ter - mais facilidade em me adaptar ao novo serviço. Conto para isso com a paciência e a cooperação de todos, que a cada dia me ensinam algo novo.

Desde então, prometi que faria um texto para esta repartição e estou digerindo algumas idéias. Pensei em algumas metáforas, em comparar esse pessoal com alguma coisa. A primeira idéia, como sempre, foi a mais clássica possível.

Como somos dois setores que trabalham numa mesma sala, em harmonia, pensei em comparar com o sistema bicameral do congresso, que se ajuda na criação das leis para o desenvolvimento de uma nação, mas não somos sujos como eles. Posteriormente pensei em alguns esportes, sempre me remetendo a divisão entre espaços. Veio o vôlei, mas logo percebi que não daria certo, pois não somos rivais.

Depois de alguns fracassos, apareceu o que pode ser a melhor chance de acertar: um peixe. A principio, parece estranho, mas como esse bicho tem duas cavidades no coração – um átrio e um ventrículo -, pensei de novo que a divisão pode ser a chave para a boa metáfora. Trabalhamos unidos para que o grande peixe possa continuar nadando por ai.

Aqui dentro, percebo que o estereótipo de uma repartição pública, de servidores preguiçosos, sem ânimo, que fazem cara feia quando existe a possibilidade de um novo serviço, não tem, definitivamente, vez; muito pelo contrário. Esse pessoal aqui tem muita disposição em ajudar, se mostra interessado às pessoas e aos problemas que aparecem. Enfim, somos um coração que bate forte no corpo desse peixe, e digo isso em primeira pessoa porque estou começando a entrar no ritmo, vagarosamente, mas entrando. A cada dia aprendo mais com cada um dos que me fazem companhia na rotina de trabalho.

Quem me dera, por exemplo, ter a competência; a responsabilidade da Ana, ou quem sabe o poder de concentração e a atenção da Ester, ou a sagacidade; maleabilidade e o bom senso do Ronaldo, ou a força de vontade e a dedicação do Fabrício, a seriedade e eficácia do Juarez, a beleza e prestatividade da Gisele ou o bom humor e o conhecimento do Adhemar. Ah, quem me dera!

Com todas essas características, e muitas outras que esse pessoal tem, não resta dúvida que a gente dentro desse coração de duas cavidades vai ficar maior do que o peixe, e, quem sabe, maior até que o aquário. O futuro é brilhante pela frente.

Espero que, com o passar de algum tempo e o desenvolvimento desse futuro brilhante, essas pessoas também possam se lembrar de algo bom em mim. Que possamos caminhar - tanto profissional, quanto (por que não?) pessoalmente –, com nossas vidas, afinal, amigos e amigas são sempre bem vindos onde quer que se esteja.

Obs.: agradeço ao amigo/irmão Thales pela ajuda científica.

13.4.10

O direito moderno e a inquisição

Recebi, por e-mail, uma crítica ferrenha de um advogado de Belo Horizonte sobre a postura e a influência da mídia no julgamento mais comentado do ano, (certamente não precisaria de um aposto nesse momento, pois todos sabem que me refiro ao casal Alexandre e Anna Jatobá, mas assim mesmo o faço).

Quem me mandou este texto foi minha mãe, uma futura advogada que merece muito respeito e orgulho meu. Ainda assim - tomando como um bom momento para debater o assunto, e como uma agulhada da minha mãe, que não pode ficar sem resposta - ousarei criticar alguns dos argumentos utilizados no texto.

Prometi a mim mesmo que não teceria qualquer comentário público sobre o assunto, para não cair no "agenda-setting" e no circo que a grande mídia transformou esse caso, mas preciso descumprir essa promessa.

Antes que comece com as críticas, é preciso salientar que o advogado tem razão ao dizer que a imprensa teve papel importante na "caça aos culpados" ou, como o próprio se refere, na busca por "justiça".

Em partes, eu concordo fielmente com o texto, com o poder que a mídia designou sobre as pessoas neste caso, que certamente teve papel diferenciado na retumbante concentração que influenciou a massa (e digo influenciar embasado na origem da palavra - preencher com fluido algo que era, a priori, vaz
io).

De qualquer forma, falar que somos – os jornalistas - culpados pela condenação do casal, pela paixão dos brasileiros por este acontecimento, é perigoso e pode, em algum argumento passional de defesa, aliviar uma possível sentença.

Não! Ninguém plantou isso! Ninguém estava no Edifício London esperando alguém cair lá de cima pra fotografar e relatar. A imprensa teve papel importante nesse resultado, mas este - o resultado - foi embasado por um órgão que, se não é tão respeitado na ótica da crítica do advogado, deveria ser, porque na lei brasileira, o tribunal, o júri, tem autonomia para decidir.

Se este jurista, e também minha mãe, estiverem insatisfeitos com a intensidade da cobertura ou com a mídia em geral, sugiro, em ambos os casos (com diferentes intensidades de desejo) que se mudem para a China ou para a Coréia do Norte, onde o papel dos jornalistas é sempre submetido ao crivo de autoridades ditatoriais.

O engraçado – se é que pode haver algo engraçado em tamanha falta de bom senso de todos os envolvidos no caso Isabela - é ver juristas desmerecendo um órgão importante do sistema jurisdicional brasileiro, que é um dos mais elogiados do mundo, diga-se de passagem, dizendo que a mídia, e sua grandiosa participação no julgamento, promoveu uma inquisição ao casal Nardoni.

Seria menos engraçado se, em meados do ano passado, muitos desses juristas não concordassem com a posição majoritária e quase pacífica do Supremo Tribunal Federal e
m não se exigir o diploma a quem quiser exercer função de jornalista com o principal argumento de que a profissão não causaria grandes riscos à sociedade como outras.

Afinal, se tem – o jornalista – esse poder de transformar um julgamento de um tribunal em que existem legislações específicas; órgãos responsáveis; reputação ilibada e presunção de legitimidade, não seria pertinente escancarar as redações e o know-how da profissão aos que, simplesmente, sabem escrever. Pelo contrário! Seria necessário, cada vez mais, selecionar bons profissionais para ocuparem cargos de tamanha responsabilidade nas grandes redações, certo?

Porém, digo que quem desvalorizou o diploma de jornalista não foi o STF, e sim as instituições que se proliferam a cada esquina do país e que não ensinam absolutamente nada do fora da técnica aos “profissionais” que saem em grandes fornadas. Nada do perguntar; do se manter curioso; do debater ideologias é dito, criando – estas instituições - bonequinhos de ventríloquos que satisfazem seus chefes em redações e apenas isso.

A abertura do jornalismo aos letristas em geral não pode ser boa em quase nenhum aspecto. Por outro lado, leis de controle sobre os conteúdos e a qualidade da educação - de base e superior - para a melhoria dos profissionais formados nessa área devem ser mais bem elaboradas. Pode ser que juristas, que outrora elogiaram o carro chefe do judiciário, estejam, com mais esta experiência, começando a refletir mais profundamente sobre isso.

A mudança do STF se mostrou ineficaz na primeira situação de teste. Cada vez mais (em vez de procurarem - os advogados, acadêmicos e ministros em questão – formas de explicações; teorias e culpados para isto ou aquilo) mostra-se importante um pensamento mais seletivo e selecionado para se mudar eficaz e eficientemente a relação da imprensa com a notícia em geral, ou poderemos, sim, entrar num período de inquisição, também citado pelo texto.

19.2.10

Um resquício de moral

Algumas figuras do direito administrativo brasileiro ainda podem ser bastante elogiadas, tanto na sua essência; criação; forma, quanto em sua aplicabilidade. A intervenção federal (prática do governo federal para intervir diretamente no controle de um ente federativo - estado ou município - para reorganizar este no que estiver em descontrole) é um exêmplo e ainda é temida nos Estados.

Da última vez que a ameaça de intervenção foi feita, ao que me lembre, foi a alguns anos na crise do sistema de saúde do Estado do Rio de Janeiro. Várias denúncias contra hospitais públicos; mobilização da imprensa; forças armadas no estado e a população desejosa por melhorias foram alguns dos fatores que, se não resolveram a situação por lá, causaram alguma pressão, muito trabalho de investigações e algumas prisões.

Porém, nada visto no Rio pode ser comparado ao que ocorre no Distrito Federal nesta semana. Uma semana atípica na cultura brasileira, onde nada de muito sério ocorre na econômia, política e em quase todos os ramos da sociedade, afinal é carnaval.

Confesso que - mesmo eu, que me interesso pela política nacional, tenho uma parte da família e um futuro pela frente em Brasília - não esperava que os recentes escândalos do governo local fossem ter andamento até o fim desse mês.

Tudo começou em dezembro de 2009 quando o governador, o vice e vários membros da política local foram flagrados recebendo dinheiro de propina. Até o fim do mês, 11 pedidos de impeachment e outros 10 de cassação de deputados distritais foram parar na Câmara Legislativa do DF.

A novela Arruda se rendeu a banho maria por algumas semanas e a casa leguslativa do Distrito Federal ignorou às provas que seguiam sendo destaque na imprensa nacional e aos anseios de órgão sérios como Ordem dos Advogados do Brasil e outros, seguindo para seu recesso administrativo.

Impeachment e cassação: duas palavras complicadas mesmo antes de se saber o significado. Depois que se sabe então, ficam bem mais. As festas de fim de ano passaram, os parlamentares do DF voltaram de férias e o caso foi reaberto com o fim da CPI da corrupção, criada para investigar o caso.
Quando tudo se encaminhava à pizzaria mais próxima e ao profundo esquecimento, a notícia do afastamento do governador e da prisão preventiva decretada, assim como a ameaça federal de tomar o controle da situação, abalou as celebrações de carnaval da cúpula do Democratas-DF.

A novela, contudo, continua, mesmo com a renúncia de Arruda, já que o vice governador ( o empresário Paulo Octavio) manifestou seu interesse em continuar no governo e pediu apoio aos deputados.

O certo disso tudo é que ainda veremos muitos capítulos desta novela "mensalão do DEM", e espero que hajam outras grandes surpresas como essa.

7.2.10

Como a Fênix

Bateu saudade! Não sei o que me ocorreu nesta tarde de domingo extremamente quente, como as últimas, na região de BH.

Quando vi o grande parceiro e poeta, DiOli, editando o layout e as postagens de seu filho cibernético, fiquei com muita vontade de dar as caras por aqui, afinal, há muito nossa brasa não está mais tão ardente como outrora.

Ao chegar em casa, vim logo "fuçar" no histórico, nas primeiras postagens desse blog, o que só aumentou a sede em escrever algo. Pensei logo numa crônica sobre este tempo que fiquei afastado e me deparei com algumas questões:

- Será que ainda tenho assuntos?
- Sim, respondi-me prontamente. Já que em outros tempos escrevemos sobre tantas variedades e discutimos na criação desse espaço que "tudo o que pega fogo deveria entrar na fogueira", não seria tão difícil arrumar uma crônica.

Outras perguntas me vieram e a mais importante foi:

- Será que ainda vou ter leitores, seguidores? Afinal, aprendi que não faço nada exclusivo pra mim; ninguém faz.

Uma coisa é dizer do reconhecimento, de prêmios, de ser o blog mais visitado da net. Não tenho nenhuma pretenção quanto a isto, mas, sim! Espero que alguém se disponha a compartilhar comigo este texto. Seria bem legal! Porém, não vi nenhuma dificuldade em sair dessa questão e deixar algumas palavras por aqui. O que vier a seguir é muito bem vindo e não planejado.

Contudo, enalteço meu saudosismo aos leitores, se ainda houver algum. Voltarei a dar mais as caras, com alguma frequência, por aqui, porque percebi que sinto falta disso. Não só dos textos, dos debates, mas do simples prazer de conversar e de públicar isso pra quem se interessar.

Tomara que daqui pra frente eu possa ter mais inspiração e ressucitar das cinzas este espaço, sempre aberto. Precisarei de bastante combustível, mas estou disposto a tentar!

PS I: Obrigado, parceiro poeta. Me fizeste sentir algo tão forte em relação à internet e a esse espaço que saí um pouco do meu mundinho físico e palpável para voltar, espero que definitivamente, a um ambiente de tantas boas recordações e algumas boas idéias.

PS II: Por falar em idéias, aceito sugestões para posts futuros.

23.6.09

Coluna invertebrada

Mais uma interessante posição sobre a cassação do diploma de jornalista para o exercício da profissão, medida tomada pelo STF na semana passada. Desta vez, trago para o debate dois pequenos textos do humorista Danilo Gentili.